CASSOULET DE FRUTOS DO MAR

14:06


C A S S O U L E T   D E   F R U T O S   D O   M A R
U M A   C O N V I D A D E   E   U M A   V I A G E M   A O S   A Ç O R E S


Hoje, orgulhosamente, o texto é da minha mãe.

Minha casa é uma casa onde se come, uma casa que gira em torno da comida, a cozinha é “o” local. Quando recebemos amigos, é na cozinha que todos querem ficar, muitas vezes embolados, mesmo com o calor do forno e do verão infernal de Vitória. Mas, da cozinha ninguém sai, é lá que ficamos ao redor da mesa, sentindo os cheiros dos temperos picados, das ervas, do azeite e do alho, bebendo uma cerveja ou um vinho gostoso, falando alto, rindo e soltando farpas brincantes entre afagos de delícias.

E nessa casa que gira em torno da comida, eu sou aquela que come, nunca aquela que cozinha... Sempre foi assim na minha vida. Meu avô cozinhava, meu pai cozinhava, minha avó fazia bolo de Nescau e bolinho de chuva, minha mãe cozinha e minha filha e meu genro, os amigos dela e os meus amigos também, mandam bem nas artes da cozinha... 

É tive sorte... Porque eu amo comer, amo os cheiros, amo as cores, amo estar na cozinha - calorenta ou não - ouvindo histórias, perguntando o que leva naquela receita especial, que vinho é esse, o que tem pra comer... Feliz em meio às risadas, às conversas, à atmosfera que reina nos ambientes que giram ao redor da comida. Por isso, porque todo mundo que amei ou amo na vida cozinha e ama cozinhar, eu nunca ou quase nunca me aventuro na cozinha. Mas, gosto de saber sobre comida, como é feita, gosto de livros que descrevem o ritual da comida, gosto de imagens de comida, das mesas fartas e dos rostos satisfeitos depois de se empanturrar de um prato especial. 

Assim, nas viagens que fiz e faço, sempre quero experimentar sabores novos e quero levar comigo aquele paladar diferente, aquele aroma que não vou encontrar na minha terra. Aí eu ando por aí sentindo os cheiros, provando os gostos do mundo e me encantando com tantas possibilidades diferentes de alimentos preparados por tantos talentos de mãos criadoras. 

A família do meu pai, nascido em Moçambique, era portuguesa e os sabores de Portugal e da África sempre estiveram presentes na minha vida e eu sempre quis conhecer Portugal. Acabei tendo a sorte de ir algumas vezes. Em uma dessas vezes, fui parar nos Açores para um Festival de Cinema, na ilha do Faial, um dos lugares mais mágicos e incríveis que já pisei. Para quem não sabe, os Açores são um arquipélago de ilhas vulcânicas com praias de areia preta, vulcões (claro), no meio do oceano de um azul profundo, com um clima doido, com mudanças bruscas de temperatura e ventos poderosos.

E foi lá que experimentei pela primeira vez, esse prato delicioso, cuja receita agora está aqui pra quem quiser preparar e me convidar, claro (brincadeirinha!). Foi numa noite de ventos fortes, após um passeio de barco para a ilha do Pico para conhecer a adega do Norberto Serpa. Ele nos ofereceu sua hospitalidade e sua comida farta feita na brasa, no quintal de sua casa, ao pé do vulcão e com uma vista espetacular. Norberto é oceanógrafo e marinheiro, já até participou de um episódio da série televisiva do Anthony Bourdain, No Reservations.

Ao voltarmos, no final de uma tarde fria e chuvosa de outono, fomos a um bar onde nos seria oferecido o jantar pelo Festival. Chegamos lá e entramos, o calor do local e a simpatia das pessoas nos receberam e quando se abriu a tampa do caldeirão e eu vi aquele caldo de feijão, senti o aroma delicioso de frutos do mar, foi como um tapa, tudo pareceu adquirir uma suavidade quente e cheirosa, como se o mundo diminuísse a velocidade. Nem preciso dizer que comi feito criança que retira da comida tudo o que precisa para ser feliz.

Retornei ao Brasil, nunca mais voltei aos Açores e fiquei com o desejo latente na minha alma portuguesa e saudosa da sensação da comida e do calor daquela noite especial.

Como pessoa que gosta de comer, mas não se arrisca na cozinha, sempre pedia pros amigos e pra filha, bruxinha da cozinha, fazer a tal da feijoada de frutos do mar e ela sempre a me enrolar. Alguns amigos fizeram, comi uma vez na Ilha das Caieiras, mas não era a mesma coisa, não era o sabor que me lembrava das terras que conheci no meio do Oceano Atlântico. 

Até que Rebecca se decidiu a fazer. Compramos os ingredientes e marcamos o dia. Eu expliquei mais ou menos o que eu achava que era, que ingredientes que eu achava que eram essenciais, tentei descrever da melhor maneira possível o que a minha memória me contava.

Chegou o dia tão esperado, abrimos um vinho logo cedo, enquanto ela cozinhava, recebi uma amiga para ajudar na tarefa de experimentar junto conosco, um pouco das minhas memórias afetivas de um lugar ao qual ainda pretendo retornar e comemos... E como comemos... E fui feliz e ainda sou, só de lembrar de tudo o que uma comida simples é capaz de trazer de afeto e felicidade na vida de uma viajante cheia de lembranças na bagagem.

Obrigada, minha flor, por sempre trazer vida à minha vida.

Saskia Sá




C A S S O U L E T   D E   F R U T O S   D O   M A R 

250 g de camarão, sem casca e limpo

250 g de sururu, limpos
250 g de tentáculos de polvo, limpos e fatiados
250 g anéis de lula, limpos
500 g de feijão branco
2 limões sicilianos
1 maço de coentro, picado
azeite
sal e pimenta, a gosto
3 dentes de alho
2 cebolas, em rodelas
1 tomate grande, sem pele e sem sementes, em cubos pequenos

1.  Deixe o feijão de molho por 12 horas. Escorra e reserve.

2.  Massageie o polvo com sal grosso e o suco de meio limão. Reserve.
3.  Amasse os dentes de alho pressionando uma faca sobre eles. As cascas se soltam facilmente. Retire-as.
4.  Refogue a cebola, o alho e o alho-poró em um fio de azeite.
5.  Adicione o vinho branco e deixe evaporar por 1 minuto.
6.  Adicione água e o feijão.
7.  Lave o polvo e adicione a panela. Junte a lula e deixe cozinhar por 20 minutos.
8.  "Lave" o sururu com o suco de meio limão e adicione a panela, junto do tomate cortado em cubos.
9.  Faltando uns 3 minutos para o feijão e o polvo estarem bem cozidos, "lave" o camarão com meio suco de limão. Adicione o camarão e metade do coentro. Tempere com sal e pimenta.
10.  Assim que o camarão estiver cozido, pode servir. Adicione coentro picado por cima e um fio de azeite de boa qualidade.

Para acompanhar, adicionamos cúrcuma (ou açafrão da terra) em pó a um arroz já cozido. Misturamos bem. Colocamos em uma cumbuca e cobrimos com bastante feijoada.

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